{"id":15838,"date":"2021-02-27T14:12:09","date_gmt":"2021-02-27T17:12:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornaldaconstrucaocivil.com.br\/?p=15838"},"modified":"2021-02-27T14:12:09","modified_gmt":"2021-02-27T17:12:09","slug":"conselho-de-biologia-alerta-para-repeticao-da-tragedia-no-pantanal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/construcaocivil.siriusmarketingedesign.com.br\/?p=15838","title":{"rendered":"Conselho de Biologia alerta para repeti\u00e7\u00e3o da trag\u00e9dia no Pantanal"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #993300;\">Campo Grande e Cuiab\u00e1, 26 de fevereiro de 2021<\/span> \u2013 O Conselho Regional de Biologia da 1\u00aa. Regi\u00e3o (CRBio-01), cuja jurisdi\u00e7\u00e3o engloba os estados de S\u00e3o Paulo, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, apela para que as autoridades tomem medidas e a sociedade se mobilize para evitar uma nova onda de inc\u00eandios generalizados no Pantanal durante a pr\u00f3xima esta\u00e7\u00e3o de seca, nos meses de maio a outubro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No ano passado, mais de 22 mil focos de inc\u00eandio consumiram pelo menos 30% da vegeta\u00e7\u00e3o nativa do bioma. A trag\u00e9dia aconteceu devido \u00e0 combina\u00e7\u00e3o da seca prolongada \u2013 um fen\u00f4meno natural agravado pelo aquecimento global e desmatamento \u2013 com a a\u00e7\u00e3o humana, por vezes criminosa, e o desleixo do poder p\u00fablico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Mesmo com toda a destrui\u00e7\u00e3o no ano passado, com toda a como\u00e7\u00e3o nacional, nada foi feito. Os governos ainda n\u00e3o colocaram em pr\u00e1tica as medidas preventivas que tanto discutimos. A hora de agir \u00e9 agora&#8221;, ressalta o Bi\u00f3logo Jos\u00e9 Milton Longo, respons\u00e1vel pela delegacia do CRBio-01 em Campo Grande (MS).<\/p>\n<figure id=\"attachment_15840\" aria-describedby=\"caption-attachment-15840\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-15840\" src=\"https:\/\/www.jornaldaconstrucaocivil.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/FOGO-PANTANAL-300x225.jpeg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/construcaocivil.siriusmarketingedesign.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/FOGO-PANTANAL-300x225.jpeg 300w, https:\/\/construcaocivil.siriusmarketingedesign.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/FOGO-PANTANAL-1024x768.jpeg 1024w, https:\/\/construcaocivil.siriusmarketingedesign.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/FOGO-PANTANAL-768x576.jpeg 768w, https:\/\/construcaocivil.siriusmarketingedesign.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/FOGO-PANTANAL-86x64.jpeg 86w, https:\/\/construcaocivil.siriusmarketingedesign.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/FOGO-PANTANAL.jpeg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-15840\" class=\"wp-caption-text\">Inc\u00eandio no Pantanal em agosto de 2020. Cr\u00e9dito: Karen Domingo.<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Pantanal \u00e9 uma plan\u00edcie que se estende por tr\u00eas pa\u00edses: Brasil (com 62% da \u00e1rea), Bol\u00edvia (20%) e Paraguai (18%). No Brasil, a por\u00e7\u00e3o norte do Pantanal est\u00e1 no estado de Mato Grosso e a por\u00e7\u00e3o centro sul no estado de Mato Grosso do Sul.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A alma do Pantanal \u00e9 o Rio Paraguai, cujas cabeceiras est\u00e3o em Mato Grosso. A regi\u00e3o \u00e9 marcada por esta\u00e7\u00f5es bem definidas de chuva e seca. Na atual esta\u00e7\u00e3o de chuvas, as precipita\u00e7\u00f5es, principalmente nas cabeceiras do Paraguai, elevam o n\u00edvel do rio, que transborda e gradativamente alaga primeiro a por\u00e7\u00e3o norte do Pantanal, depois a parte central e sul.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As lagoas (ou baias) do Pantanal s\u00e3o ber\u00e7\u00e1rios de peixes, que atraem aves e toda uma extensa cadeia de predadores. A exuber\u00e2ncia da fauna e flora na cheia atrai turistas, principalmente para a sub-regi\u00e3o de Pocon\u00e9 (MT) e ao longo da Estrada Transpantaneira e da Estrada Parque, na regi\u00e3o de Miranda e Corumb\u00e1 (MS).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o fim das chuvas, as lagoas secam gradativamente e d\u00e3o lugar ao campo limpo (\u00e1rea predominante de capim), campo sujo (com alguns arbustos e poucas \u00e1rvores) e campo de murundum (com ilhas de \u00e1rvores e arbustos) na esta\u00e7\u00e3o de seca, que perdura aproximadamente de maio a outubro. Os inc\u00eandios costumam acontecer principalmente no fim do per\u00edodo de seca, com risco agravado pela substitui\u00e7\u00e3o do capim nativo da regi\u00e3o pelo capim africano, mais volumoso, promovida pelos pecuaristas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Bi\u00f3logo Ibraim Fantin da Cruz, professor doutor da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) e especialista na bacia hidrogr\u00e1fica do Rio Paraguai, explica que a intensidade da seca sazonal tem rela\u00e7\u00e3o direta com o volume de chuvas durante o ano. O melhor balizador para a situa\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica do Pantanal \u00e9 o n\u00edvel do Rio Paraguai, cuja medi\u00e7\u00e3o \u00e9 feita desde o in\u00edcio do s\u00e9culo 20 pela R\u00e9gua de Lad\u00e1rio, na base fluvial da Marinha em Corumb\u00e1 (MS).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com o portal da Ag\u00eancia Nacional de \u00c1guas e Saneamento B\u00e1sico (ANA), pela R\u00e9gua de Lad\u00e1rio, o n\u00edvel do Rio Paraguai estava em 1,48 metro em 24\/2\/21, muito pr\u00f3ximo do n\u00edvel de 1,50 metro em 24\/2\/20. A situa\u00e7\u00e3o atual seria, por esse par\u00e2metro, igual \u00e0 do ano passado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, Ibraim Fantin esclarece que a seca no Pantanal em 2020, a maior em cerca de 50 anos, foi resultado do baix\u00edssimo volume pluviom\u00e9trico na regi\u00e3o em 2019 e 2020. Mas, a partir da segunda quinzena de dezembro de 2020, voltou a chover dentro do padr\u00e3o hist\u00f3rico e assim foi tamb\u00e9m em janeiro e fevereiro de 2021.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto ao futuro, os modelos clim\u00e1ticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), do Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia, Tecnologia, Inova\u00e7\u00f5es e Comunica\u00e7\u00f5es, preveem que o volume pluviom\u00e9trico no Pantanal continuar\u00e1 pr\u00f3ximo ao padr\u00e3o hist\u00f3rico at\u00e9 agosto, segundo Ibraim Fantin. Ou seja, a previs\u00e3o \u00e9 de que o n\u00edvel do Rio Paraguai subir\u00e1 gradativamente nos pr\u00f3ximos meses e recuperar\u00e1 parte das perdas nos \u00faltimos dois anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Tivemos um atraso, mas a cheia j\u00e1 come\u00e7ou no norte do Pantanal, uma vez que os n\u00edveis dos principais rios, como o pr\u00f3prio rio Paraguai na altura de C\u00e1ceres e o rio Cuiab\u00e1, em Cuiab\u00e1, j\u00e1 est\u00e3o dentro do normal para o per\u00edodo. Vamos ter uma cheia modesta em todo Pantanal nessa esta\u00e7\u00e3o de chuvas, mas a cheia vai acontecer&#8221;, prev\u00ea Ibraim Fantin. &#8220;Na esta\u00e7\u00e3o de seca, o Rio Paraguai deve ficar dentro do padr\u00e3o normal, mas abaixo da m\u00e9dia hist\u00f3rica. A expectativa \u00e9 de uma situa\u00e7\u00e3o melhor do que a de 2020. Uma situa\u00e7\u00e3o de alerta, mas n\u00e3o cr\u00edtica como a do ano passado&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Medidas preventivas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto \u00e0 situa\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica, s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel torcer para que as previs\u00f5es do Inpe se concretizem. Ainda que o regime pluviom\u00e9trico se mantenha nos n\u00edveis hist\u00f3ricos durante o ano, a situa\u00e7\u00e3o na esta\u00e7\u00e3o de seca ser\u00e1 de alerta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Bi\u00f3logo Luiz Antonio Solino, professor da Universidade de V\u00e1rzea Grande (Univag), de Mato Grosso, conselheiro da ONG Funda\u00e7\u00e3o Ecotr\u00f3pica e representante do CRBio-01 no F\u00f3rum Mato-Grossense de Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas, reafirma a import\u00e2ncia de o poder p\u00fablico colocar em pr\u00e1tica iniciativas de preven\u00e7\u00e3o amplamente discutidas durante a crise, mas aparentemente deixadas de lado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira recomenda\u00e7\u00e3o dos especialistas \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de brigadas de inc\u00eandio locais do Centro Nacional de Preven\u00e7\u00e3o e Combate aos Inc\u00eandios Florestais (PrevFogo) do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renov\u00e1veis (Ibama). Solino defende que, na \u00e9poca da seca, as brigadas fiquem sediadas em munic\u00edpios e pousadas \u2013 em geral, o fluxo de turistas acontece apenas na cheia \u2013 pr\u00f3ximos aos focos de inc\u00eandio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A capilariza\u00e7\u00e3o das brigadas permitiria o r\u00e1pido deslocamento das equipes para o combate aos inc\u00eandios. Solino explica que a log\u00edstica de deslocamento no Pantanal \u00e9 complexa e que uma equipe do PrevFogo pode demorar at\u00e9 dois dias para chegar, por exemplo, de Corumb\u00e1 at\u00e9 um foco de inc\u00eandio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os brigadistas do PrevFogo, em geral, s\u00e3o civis contratados temporariamente pelo Ibama. Solino sugere que os contratados sejam moradores da regi\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra medida de preven\u00e7\u00e3o fundamental \u00e9 o aumento da fiscaliza\u00e7\u00e3o. Grande parte dos inc\u00eandios no ano passado foi criminosa. Os propriet\u00e1rios de terras no Pantanal podem realizar queimas controladas, desde que autorizados pelo poder p\u00fablico e com as devidas precau\u00e7\u00f5es para conten\u00e7\u00e3o do fogo. Em 2020, e em menor escala nos anos anteriores, houve muitas queimadas n\u00e3o autorizadas que fugiram do controle e tornaram-se inc\u00eandios de grandes propor\u00e7\u00f5es, o que se enquadra como cometimento de crime ambiental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;At\u00e9 agora, os inqu\u00e9ritos abertos pela Pol\u00edcia Federal n\u00e3o chegaram aos respons\u00e1veis pelos inc\u00eandios no ano passado&#8221;, ressalta Solino. &#8220;O mais preocupante \u00e9 o atual desaparelhamento dos \u00f3rg\u00e3os de fiscaliza\u00e7\u00e3o, respons\u00e1veis pelas autua\u00e7\u00f5es aos infratores, como as secretarias de meio ambiente, que t\u00eam contingentes pequenos e concentrados nas capitais&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para que a trag\u00e9dia n\u00e3o se repita este ano, os governos federal, estaduais e municipais precisam investir em contrata\u00e7\u00e3o de recursos humanos para as brigadas e \u00f3rg\u00e3os de fiscaliza\u00e7\u00e3o, treinamento das equipes, cria\u00e7\u00e3o de infraestrutura local e compra de materiais, como equipamentos de prote\u00e7\u00e3o individual, al\u00e9m do aluguel de helic\u00f3pteros para deslocamento e avi\u00f5es com capacidade para despejar \u00e1gua sobre as \u00e1reas em chamas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre as queimas controladas, Solino esclarece que a pr\u00e1tica \u00e9 legal e \u00e9 tradicionalmente praticada pelos propriet\u00e1rios rurais para a limpeza do pasto. Realizar queimas controladas em pequena escala no in\u00edcio da esta\u00e7\u00e3o de seca pode ser, inclusive, uma boa estrat\u00e9gia para diminuir a quantidade de capim potencialmente combust\u00edvel no per\u00edodo mais agudo da seca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, Solino adverte que as queimas controladas s\u00f3 podem ser realizadas com autoriza\u00e7\u00e3o do poder p\u00fablico e sob condi\u00e7\u00f5es estritas de seguran\u00e7a, supervisionadas e operacionalizadas por brigadistas do PrevFogo. A \u00e1rea da queimada deve ser cercada por um buraco que impe\u00e7a a progress\u00e3o do fogo para outras localidades. No caso de mudan\u00e7a do vento ou de outra circunst\u00e2ncia de risco, os brigadistas apagam o fogo. No entorno da \u00e1rea, n\u00e3o pode haver outras queimadas, de maneira que haja uma rota de escape para os animais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Solino enfatiza tamb\u00e9m a necessidade do estabelecimento de um sistema mais \u00e1gil de monitoramento dos focos de inc\u00eandio, que se somaria \u00e0 atual vigil\u00e2ncia por imagens de sat\u00e9lite. Ele prop\u00f5e a constru\u00e7\u00e3o de torres de observa\u00e7\u00e3o, de onde fiscais possam visualizar rapidamente sinais de fuma\u00e7a. As torres permitem boa visibilidade na plan\u00edcie do Pantanal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O projeto de torres de observa\u00e7\u00e3o foi discutido pelas autoridades locais e tem como principal entrave a necessidade de autoriza\u00e7\u00f5es de propriet\u00e1rios rurais para as constru\u00e7\u00f5es em terras privadas. Solino defende, ent\u00e3o, que os governos instalem as torres em \u00e1reas p\u00fablicas, como reservas, parques e ao longo de estradas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para al\u00e9m das medidas imediatas de preven\u00e7\u00e3o, os Bi\u00f3logos especialistas apontam que a preserva\u00e7\u00e3o do Pantanal passa pela educa\u00e7\u00e3o ambiental de propriet\u00e1rios rurais, popula\u00e7\u00f5es locais e da sociedade como um todo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jos\u00e9 Milton Longo, respons\u00e1vel pela delegacia do CRBio-01 em Campo Grande, lamenta a aus\u00eancia do trabalho efetivo de educa\u00e7\u00e3o ambiental nas escolas e de programas dirigidos a pecuaristas e popula\u00e7\u00f5es que habitam o Pantanal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Precisamos de muita educa\u00e7\u00e3o, sobretudo educa\u00e7\u00e3o ambiental, que hoje \u00e9 pontual. Os produtores precisam entender que h\u00e1 alternativas para a limpeza dos pastos sem a utiliza\u00e7\u00e3o do fogo&#8221;, defende Longo. &#8220;A conscientiza\u00e7\u00e3o, e urgente, \u00e9 o \u00fanico caminho para evitarmos o r\u00e9quiem do Pantanal&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Campo Grande e Cuiab\u00e1, 26 de fevereiro de 2021 \u2013 O Conselho Regional de Biologia da 1\u00aa. 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