{"id":19235,"date":"2022-05-03T00:19:19","date_gmt":"2022-05-03T03:19:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornaldaconstrucaocivil.com.br\/?p=19235"},"modified":"2022-05-03T00:19:19","modified_gmt":"2022-05-03T03:19:19","slug":"mais-de-uma-decada-apos-catastrofe-de-2011-petropolis-nao-criou-um-plano-de-emergencia-para-desastres-naturais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/construcaocivil.siriusmarketingedesign.com.br\/?p=19235","title":{"rendered":"Mais de uma d\u00e9cada ap\u00f3s cat\u00e1strofe de 2011 Petr\u00f3polis n\u00e3o criou um plano de emerg\u00eancia para desastres naturais"},"content":{"rendered":"<div class=\"author\"><span style=\"color: #0000ff;\">por\u00a0<a style=\"color: #0000ff;\" href=\"https:\/\/mab.org.br\/autor\/coletivo-nacional-de-comunicacao-do-mab\/\">Coletivo Nacional de Comunica\u00e7\u00e3o do MAB<\/a><\/span><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"single-the-content\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-style-large\"><p><span style=\"color: #993300;\">\u201cTenho muito medo ainda das chuvas. Se aqui \u00e9 seguro n\u00e3o sei, mas fico com meu cora\u00e7\u00e3o apertado sempre que chove. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil lembrar do que eu passei: perder sua fam\u00edlia inteira cheia de vida\u201d.<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"color: #000080;\">Maio<\/span>, 2022 &#8211; A camareira Monalisa L., 36 anos, atualmente moradora do bairro Quitandinha, foi a \u00fanica sobrevivente de sua casa durante uma enxurrada que afetou Petr\u00f3polis em 2003. No dia 11 de janeiro daquele ano, ela estava com sua m\u00e3e, dois irm\u00e3os e seu marido \u2013 todos juntos na sala, esperando a chuva passar, quando resolveu ir \u00e0 cozinha tomar um copo de \u00e1gua. Nesse minuto, a constru\u00e7\u00e3o desabou e a \u00fanica parte que ficou em p\u00e9 foi o c\u00f4modo onde ela estava.<\/p>\n<p>Anos depois, a moradora reviveu o sofrimento vendo amigos e conhecidos enfrentarem um drama parecido na emblem\u00e1tica cat\u00e1strofe de 2011, que matou mais de mil pessoas na regi\u00e3o serrana do Rio.<\/p>\n<p>De l\u00e1 pra c\u00e1, pouco se avan\u00e7ou em pol\u00edticas p\u00fablicas em rela\u00e7\u00e3o ao planejamento urbano, uso e ocupa\u00e7\u00e3o do solo, ou pol\u00edticas habitacionais que pudessem reduzir a vulnerabilidade de pessoas que vivem em \u00e1reas de morro.<\/p>\n<p>No dia 15 de fevereiro deste ano, uma das casas do bairro de Monalisa foi afetada pela enxurrada, mas, felizmente, n\u00e3o chegou a desabar. Outras comunidades de Petr\u00f3polis, como o Morro da Oficina, a Vila Felipe e a Rua Teresa, por\u00e9m, viveram um dia de terror. Ao todo, 232 pessoas morreram na ocasi\u00e3o. Um m\u00eas depois, um novo temporal matou mais cinco moradores e deixou outras centenas sem casa.<\/p>\n<p>\u201cMuitos constroem em \u00e1rea de risco por falta de op\u00e7\u00e3o\u201d, ressalta Monalisa, explicando o que pode parecer \u00f3bvio, mas n\u00e3o para o presidente Bolsonaro que, em entrevista na tv ap\u00f3s o epis\u00f3dio, disse que muitos cidad\u00e3os de Petr\u00f3polis foram afetados pela chuva porque n\u00e3o tiveram \u201cvis\u00e3o de futuro\u201d ao construir em \u00e1reas de morro.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-31740\" src=\"https:\/\/mab.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/IMG_0085-1024x683.jpg\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"https:\/\/mab.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/IMG_0085-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/mab.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/IMG_0085-300x200.jpg 300w, https:\/\/mab.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/IMG_0085-768x512.jpg 768w, https:\/\/mab.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/IMG_0085-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/mab.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/IMG_0085-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/mab.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/IMG_0085-205x137.jpg 205w, https:\/\/mab.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/IMG_0085-272x182.jpg 272w\" alt=\"\" \/><figcaption>Vista do Morro do Pinto, na rua Waldemar Ferreira, onde houve deslizamentos em fevereiro e mar\u00e7o de 2022. Foto: Luana Faria<\/figcaption><\/figure>\n<p>Roberto Oliveira, coordenador do MAB, que integrou a Brigada de Solidariedade \u00e0s fam\u00edlias atingidas pelas cat\u00e1strofes de Petr\u00f3polis, afirma que o que aconteceu no munic\u00edpio foi uma trag\u00e9dia anunciada devido \u00e0 falta de obras de seguran\u00e7a nas \u00e1reas que j\u00e1 haviam sido atingidas por outros desastres. \u201cOs deslizamentos s\u00e3o previs\u00edveis por raz\u00f5es topogr\u00e1ficas e hist\u00f3ricas, mas poderiam ter seu impacto minimizado caso as autoridades locais tivessem implantado um pacote de medidas de seguran\u00e7a e preven\u00e7\u00e3o, ou investido em pol\u00edticas de moradia adequadas para o territ\u00f3rio\u201d, enfatiza o militante.<\/p>\n<p>Depois do momento de como\u00e7\u00e3o nacional, em que muitas organiza\u00e7\u00f5es e personalidades pol\u00edticas se mobilizaram em a\u00e7\u00f5es de ajuda humanit\u00e1ria para os atingidos (doando alimentos e roupas), a m\u00eddia deixou de dar visibilidade para a situa\u00e7\u00e3o do munic\u00edpio. \u201cApesar de Petr\u00f3polis ter sa\u00eddo do notici\u00e1rio, a grande maioria das fam\u00edlias afetadas segue sem casa, sem amparo do poder p\u00fablico e sem acesso ao benef\u00edcio do aluguel social. Nesse momento, muitos voltaram a morar nos mesmos locais de risco de onde escaparam por n\u00e3o terem nenhuma outra perspectiva de moradia digna\u201d, explica Roberto.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-gallery columns-2 is-cropped\">\n<ul class=\"blocks-gallery-grid\">\n<li class=\"blocks-gallery-item\">\n<figure><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-31745\" src=\"https:\/\/mab.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/aa7558ac-df20-4c33-b339-fb5ef4431787-1-768x1024.jpg\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" srcset=\"https:\/\/mab.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/aa7558ac-df20-4c33-b339-fb5ef4431787-1-768x1024.jpg 768w, https:\/\/mab.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/aa7558ac-df20-4c33-b339-fb5ef4431787-1-225x300.jpg 225w, https:\/\/mab.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/aa7558ac-df20-4c33-b339-fb5ef4431787-1-205x273.jpg 205w, https:\/\/mab.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/aa7558ac-df20-4c33-b339-fb5ef4431787-1.jpg 960w\" alt=\"\" data-id=\"31745\" data-full-url=\"https:\/\/mab.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/aa7558ac-df20-4c33-b339-fb5ef4431787-1.jpg\" data-link=\"https:\/\/mab.org.br\/?attachment_id=31745\" \/><\/figure>\n<\/li>\n<li class=\"blocks-gallery-item\">\n<figure><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-31746\" src=\"https:\/\/mab.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/ca2eb89f-d95c-4a26-a50f-6a6fa82620e5-768x1024.jpg\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" srcset=\"https:\/\/mab.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/ca2eb89f-d95c-4a26-a50f-6a6fa82620e5-768x1024.jpg 768w, https:\/\/mab.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/ca2eb89f-d95c-4a26-a50f-6a6fa82620e5-225x300.jpg 225w, https:\/\/mab.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/ca2eb89f-d95c-4a26-a50f-6a6fa82620e5-205x273.jpg 205w, https:\/\/mab.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/ca2eb89f-d95c-4a26-a50f-6a6fa82620e5.jpg 960w\" alt=\"\" data-id=\"31746\" data-full-url=\"https:\/\/mab.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/ca2eb89f-d95c-4a26-a50f-6a6fa82620e5.jpg\" data-link=\"https:\/\/mab.org.br\/?attachment_id=31746\" \/><\/figure>\n<\/li>\n<\/ul><figcaption class=\"blocks-gallery-caption\">Moradores tentam abrir acesso de via que ficou fechada com destro\u00e7os por conta de deslizamento no Bairro Caxambu. Fotos: Luana Faria<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o houve nenhuma obra aqui para aumentar a seguran\u00e7a do morro. Al\u00e9m disso, estamos sem luz e sem \u00e1gua. Meu irm\u00e3o fez uma calha e enchi uma caixa com \u00e1gua da chuva pra usar. Mas a gente paga imposto, paga todas as contas e est\u00e1 a assim. E n\u00e3o veio nenhum funcion\u00e1rio da Prefeitura ou da Enel falar com a gente. S\u00f3 interditaram a \u00e1rea e s\u00f3. Tem que fazer muro de conten\u00e7\u00e3o e obra de canaliza\u00e7\u00e3o pra proteger essas 46 casas que ainda est\u00e3o de p\u00e9 no morro. Porque a gente custa muito a conseguir algo na vida, um teto pra morar e agora a prefeitura quer demolir e pronto. E a gente vai pra onde? Isso ningu\u00e9m diz\u201d, denuncia Lina Brand\u00e3o, moradora do Bairro Caxambu contando a situa\u00e7\u00e3o depois do segundo deslizamento na Morro do Ponto..<\/p>\n<p>Diante deste contexto, Isabela Souza, que tamb\u00e9m \u00e9 integrante do MAB e colaborou com a Brigada de Solidariedade em Petr\u00f3polis, afirma que \u00e9 muito importante apoiar a organiza\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias e fazer o debate sobre a repara\u00e7\u00e3o dos danos e a seguran\u00e7a desses moradores.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-style-large\"><p>\u00a0 \u201cAs doa\u00e7\u00f5es s\u00e3o muito importantes, principalmente pra quem perdeu tudo, mas, nesse momento, \u00e9 preciso garantir os direitos fundamentais das fam\u00edlias, como, por exemplo, o direito \u00e0 moradia, j\u00e1 que muitos n\u00e3o conseguiram acessar o aluguel social\u201d, ressalta Isabela.<\/p><\/blockquote>\n<p>Por isso, Roberto Oliveira explica que o MAB vai continuar dialogando com a comunidade para criar coletivamente um plano de organiza\u00e7\u00e3o e luta por direitos. \u201cAs viola\u00e7\u00f5es contra essas fam\u00edlias s\u00e3o hist\u00f3ricas e, se nada for feito efetivamente, no pr\u00f3ximo ano veremos a situa\u00e7\u00e3o se repetir\u201d, afirma.<\/p>\n<h3><strong>Plano de Emerg\u00eancia<\/strong><\/h3>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-31759\" src=\"https:\/\/mab.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/r7rio-032022-petropolis-05032022134145129.jpeg\" sizes=\"(max-width: 677px) 100vw, 677px\" srcset=\"https:\/\/mab.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/r7rio-032022-petropolis-05032022134145129.jpeg 677w, https:\/\/mab.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/r7rio-032022-petropolis-05032022134145129-300x164.jpeg 300w, https:\/\/mab.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/r7rio-032022-petropolis-05032022134145129-205x112.jpeg 205w\" alt=\"\" \/><figcaption>Escolas usadas como ponto de apoio para desabrigados ficaram sem aulas<\/figcaption><\/figure>\n<p>Conforme relatam os moradores que sobreviveram \u00e0 \u00faltima enxurrada, apesar do hist\u00f3rico c\u00edclico de trag\u00e9dias, a \u00fanica orienta\u00e7\u00e3o da Defesa Civil para as situa\u00e7\u00f5es de amea\u00e7a de deslizamento \u00e9 procurar escolas que servem como abrigo.<\/p>\n<p>Ang\u00e9lica Domingas Pacheco, que \u00e9 militante do Movimento das Comunidades Populares (MCP) e diretora da Escola Leonardo Boff, na comunidade do Contorno, explica, por\u00e9m, que as equipes destas escolas n\u00e3o recebem nenhum tipo de treinamento ou plano de a\u00e7\u00e3o para as situa\u00e7\u00f5es de desastres.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-style-large\"><p>\u201cN\u00e3o tem um plano de emerg\u00eancia. Quando tocam as sirenes de alerta (que indicam risco de deslizamento), as pessoas n\u00e3o sabem o que fazer, porque, muitas vezes, o caminho pra escapar j\u00e1 foi inundado, porque a \u00e1gua j\u00e1 entrou dentro de casa, porque elas n\u00e3o sabem se \u00e9 melhor fugir e correr o risco de serem carregadas pela enxurrada, ou se proteger dentro de casa com medo de serem soterradas\u201d, afirma a diretora.<\/p><\/blockquote>\n<p>\u201cMesmo quando chegam a um abrigo, o que encontram? Diretores com boa vontade que abrem a escola e recebem pessoas que est\u00e3o com a roupa do corpo e s\u00f3. A\u00ed t\u00eam crian\u00e7as que precisam de fralda, idosos que precisam de rem\u00e9dios, fam\u00edlias inteiras que precisam minimamente comer e dormir. A\u00ed depois que as pessoas chegam vai se pensar numa log\u00edstica: onde conseguir colch\u00e3o, cobertor, cesta b\u00e1sica, como vai fazer comida? Mas isso deveria ser pensado antes. Nas cidades em que h\u00e1 problemas com terremotos, existem abrigos preparados para receber os moradores e protocolos que ajudam a proteger a vida dessas pessoas. Aqui, a gente n\u00e3o tem nada. Todo ano tem deslizamentos e enchentes e n\u00e3o temos um plano para lidar com ele\u201d, afirma a militante.<\/p>\n<h3><strong>Centro de Monitoramento emitiu alerta dias antes da trag\u00e9dia de 2022<\/strong><\/h3>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-31762\" src=\"https:\/\/mab.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/MG_0752-1024x683-1.jpg\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"https:\/\/mab.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/MG_0752-1024x683-1.jpg 1024w, https:\/\/mab.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/MG_0752-1024x683-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/mab.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/MG_0752-1024x683-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/mab.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/MG_0752-1024x683-1-205x137.jpg 205w, https:\/\/mab.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/MG_0752-1024x683-1-272x182.jpg 272w\" alt=\"\" \/><figcaption>Cemaden atua opera\u00e7\u00e3o em regime ininterrupto, 24 horas por dia, desde 2011, no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) para criar alertas de desastres naturais<\/figcaption><\/figure>\n<p>Apesar das enchentes serem chamadas pelo poder p\u00fablico de desastres \u201cnaturais\u201d, cientistas do campo da meteorologia defendem que essas trag\u00e9dias decorrem de uma combina\u00e7\u00e3o de diversos fatores, incluindo a falta de pol\u00edtica p\u00fablica de moradia e seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Dois dias antes das fortes\u00a0chuvas\u00a0que atingiram\u00a0Petr\u00f3polis no \u00faltimo m\u00eas de fevereiro, um alerta de \u201cevento meteorol\u00f3gico muito intenso\u201d foi emitido pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). O \u00f3rg\u00e3o foi criado ap\u00f3s a trag\u00e9dia de 2011 para o monitoramento e a emiss\u00e3o de alertas sobre condi\u00e7\u00f5es meteorol\u00f3gicas que oferecem risco \u00e0 popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo o diretor do Cemaden, Osvaldo Moraes, o aviso foi enviado ao Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres (Cenad) que, por sua vez, alertou a Secretaria Nacional de Prote\u00e7\u00e3o e Defesa Civil, respons\u00e1vel por fazer a comunica\u00e7\u00e3o com as Defesas Civis estaduais e municipais.<\/p>\n<p>Apesar do funcionamento do sistema de monitoramento, o poder p\u00fablico n\u00e3o criou um plano de emerg\u00eancia para quando houvesse o aviso sobre a emin\u00eancia de novas tempestades, nem conseguiu executar todas as obras de seguran\u00e7a que foram previstas para evitar o risco de novas mortes em Petr\u00f3polis a partir de 2011.<\/p>\n<p>Por isso, de acordo com Moraes, a trag\u00e9dia de Petr\u00f3polis em 2022 aconteceu em decorr\u00eancia de dois fatores: amea\u00e7a da natureza e amea\u00e7a social. Ele considera que \u2013 embora o pa\u00eds tenha avan\u00e7ado consideravelmente nas condi\u00e7\u00f5es de monitoramento de eventos meteorol\u00f3gicos, a vulnerabilidade e exposi\u00e7\u00e3o de pessoas \u00e0s \u00e1reas de risco ainda \u00e9 intensa.<\/p>\n<h3><strong>Governo do Rio de Janeiro n\u00e3o usou verba destinada a a\u00e7\u00f5es de preven\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<p>O governo do Estado do Rio de Janeiro \u2013 em balan\u00e7o realizado no ano passado, nos dez anos da trag\u00e9dia de 2011 \u2013 reconheceu que um ter\u00e7o da verba (cerca de R$ 500 milh\u00f5es) destinada \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de moradias, conten\u00e7\u00e3o de encostas e limpeza do leito dos principais rios n\u00e3o havia sido ainda aplicada.<\/p>\n<p>Segundo declara\u00e7\u00e3o de Cl\u00e1udia Renata Ramos, integrante da Comiss\u00e3o das V\u00edtimas da Trag\u00e9dia da Regi\u00e3o Serrana, Petr\u00f3polis deveria ter recebido 3.250 unidades habitacionais, mas apenas 1.025 foram entregues at\u00e9 agora. Al\u00e9m disso, pelo menos 700 pessoas afetadas pela trag\u00e9dia de 2011 ainda dependem do aluguel social (benef\u00edcio do governo do Rio de Janeiro para realocar pessoas desabrigadas nessa situa\u00e7\u00e3o), pois n\u00e3o tiveram acesso a novas moradias. J\u00e1 as cerca de 3 mil pessoas afetadas pela cat\u00e1strofe de 2022 seguem h\u00e1 dois meses esperando o benef\u00edcio, morando de favor em casas de vizinhos ou amigos.<\/p>\n<p>O agravante \u00e9 que \u2013 mesmo quando acessam o valor do aluguel \u2013 essas pessoas n\u00e3o conseguem se mudar para \u00e1reas mais seguras, porque o valor n\u00e3o \u00e9 suficiente para alugar um im\u00f3vel em bairros mais estruturados. Segundo Ang\u00e9lica Domingas, a \u00e1rea plana de Petr\u00f3polis n\u00e3o comportaria toda a popula\u00e7\u00e3o que hoje vive em \u00e1reas de morro e mesmo que comportasse, essa \u00e1rea n\u00e3o est\u00e1 livre de riscos, porque est\u00e1 entre os rios e a serra e acaba inundando.<\/p>\n<h3><strong>O que s\u00e3o \u00e1reas de risco?<\/strong><\/h3>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-31752\" src=\"https:\/\/mab.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/esperan%C3%A7a-1024x762.png\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"https:\/\/mab.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/esperan\u00e7a-1024x762.png 1024w, https:\/\/mab.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/esperan\u00e7a-300x223.png 300w, https:\/\/mab.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/esperan\u00e7a-768x572.png 768w, https:\/\/mab.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/esperan\u00e7a-205x153.png 205w, https:\/\/mab.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/esperan\u00e7a.png 1194w\" alt=\"\" \/><figcaption><strong>Petr\u00f3polis<\/strong>\u00a0est\u00e1 localizada no topo da Serra da Estrela, no conjunto montanhoso da Serra dos \u00d3rg\u00e3os, e ostenta uma topografia que favorece chuvas intensas\u00a0<\/figcaption><\/figure>\n<p>Ang\u00e9lica questiona o conceito de \u00e1reas de risco. Para a prefeitura de Petr\u00f3polis, \u00e1rea de risco \u00e9 uma \u00e1rea \u00edngreme com uma escala de altitude e um conjunto de tipo de solo, tipo de rocha, tipo de vegeta\u00e7\u00e3o e passagem da umidade que favorecem o deslizamento. \u201cExiste um relat\u00f3rio do IBAMA que mostra que toda a cidade de Petr\u00f3polis est\u00e1 em \u00e1rea de risco\u201d, afirma a moradora. Para a militante, se toda o munic\u00edpio est\u00e1 em um relevo muito \u00edngreme com picos de morro n\u00e3o faz sentido a Defesa Civil condenar apenas as casas dos moradores das \u00e1reas marginalizadas.<\/p>\n<p>\u201cOs condom\u00ednios da parte alta n\u00e3o foram atingidos porque houve um investimento na estrutura de seguran\u00e7a nesses lugares, mas o valor da moradia nesses condom\u00ednios \u00e9 car\u00edssimo e s\u00f3 uma parte privilegiada da popula\u00e7\u00e3o pode estar protegida l\u00e1\u201d, afirma Ang\u00e9lica.<\/p>\n<p>A militante explica que, por isso, atualmente, as pessoas de baixa renda ficam migrando de uma \u00e1rea insegura para outra \u00e1rea igualmente insegura tentando escapar da morte e de todos os riscos que as cat\u00e1strofes naturais oferecem.<\/p>\n<p>\u201cO que precisamos \u00e9 depol\u00edticas para uso do solo em terreno \u00edngreme que garantam a seguran\u00e7a das pessoas nesses lugares, j\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 como realocar uma popula\u00e7\u00e3o inteira de uma cidade. N\u00e3o adianta tirar as pessoas de um lugar e colocar em outro lugar igual, sem investir em seguran\u00e7a. O poder p\u00fablico precisa investir na periferia com saneamento b\u00e1sico adequado, olhar a canaliza\u00e7\u00e3o pluvial e a rede de esgoto, porque temos uma rede de esgoto que \u00e9 da \u00e9poca do imp\u00e9rio\u201d, ressalta.<\/p>\n<p>\u201cEnt\u00e3o, qual o maior risco que temos? O maior risco n\u00e3o \u00e9 o morro, mas o modelo capitalista de uso do solo que \u00e9 o que? Desmatar a floresta ao inv\u00e9s de conviver com ela. Aqui na comunidade do Contorno, uma ocupa\u00e7\u00e3o organizada, onde eu moro, a gente convive com a mata, a gente protege o caminho da \u00e1gua. E voc\u00ea v\u00ea que os morros mais atingidos pelas enxurradas s\u00e3o aqueles totalmente pelados, que n\u00e3o tem mais nenhum tipo de vegeta\u00e7\u00e3o ou que tem vegeta\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o tem canaliza\u00e7\u00e3o pra \u00e1gua\u201d, complementa a militante.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o pesquisador Roberto Teixeira, que integra a equipe do Cemaden, afirma que com a intensifica\u00e7\u00e3o dos extremos clim\u00e1ticos, \u00e9 preciso rever o modelo de uso do solo e o modelo econ\u00f4mico que colocam as popula\u00e7\u00f5es em risco. \u201cO que a gente est\u00e1 vivendo, no meu ponto de vista, \u00e9 a chegada ao final de um determinado momento hist\u00f3rico. De certa forma, esses eventos come\u00e7am a mostrar que nosso estilo de vida ocidental capitalista consumista, ele n\u00e3o \u00e9 sustent\u00e1vel.\u00a0N\u00e3o \u00e9 sustent\u00e1vel no sentido de que o processo de degrada\u00e7\u00e3o ambiental associado a uma din\u00e2mica de explora\u00e7\u00e3o social que est\u00e1 se desenvolvendo que n\u00e3o consegue se manter ao longo do tempo, porque os danos s\u00e3o cumulativos. Ent\u00e3o, o ambiente natural tem conseguido responder de uma maneira ou de outra a esse ataque que est\u00e1 sendo feito, mas em algum momento a situa\u00e7\u00e3o pode n\u00e3o conseguir mais ser revertida\u201d, alerta o cientista.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"post-content--tags\"><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por\u00a0Coletivo Nacional de Comunica\u00e7\u00e3o do MAB &nbsp; &nbsp; \u201cTenho muito medo ainda das chuvas. 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